Turismo e IA

Por que o ChatGPT recomenda outra agência e não a sua

Quando um viajante pede para uma IA recomendar uma agência, não existe segunda página: aparecem dois ou três nomes. O que ela olha para escolher e o que fazer em 90 dias para ser um deles.

Yaco Peralta
Yaco Peralta8 min de leitura
Imagem de capa do blog da trama. sobre como as inteligências artificiais escolhem quais agências de viagens recomendar. No topo, um chat com o ícone de uma IA mostra a pergunta, em espanhol, "Qual agência você recomenda para viajar à Europa com meus filhos?". Da pergunta saem três setas amarelas para três agências escolhidas, marcadas com um check: Andes Travel com o Coliseu de Roma, Ruta Europa com a Torre Eiffel e Mundo en Familia com Santorini, cada uma com quatro estrelas. Ao redor, em tons apagados, ficam outras agências com suas avaliações que a IA não citou. Fundo creme, detalhes em amarelo dourado, o selo "Turismo e IA" no topo e o wordmark "trama." embaixo.

Um viajante abre o ChatGPT num domingo à noite e escreve: "Quero levar meus dois filhos para a Europa em outubro, saindo de Curitiba. O que vale a pena? Qual agência você recomenda?"

A resposta traz dois, talvez três nomes. Se o seu não está lá, você não ficou em sétimo. Você não ficou. Aqui não existe a segunda página onde alguém rola a tela e encontra você.

Cada vez mais consultas começam assim, antes de chegar ao seu WhatsApp. Seu cliente já usa IA para montar a viagem, como contamos em seu cliente chega com uma viagem feita por IA. A pergunta agora é outra: quando ele pede um nome, por que a IA escolhe uma agência e não outra?

Uma lista de dez contra dois ou três nomes

Com o Google aprendemos um jogo com regras claras. Havia uma lista, você disputava uma posição e, se não chegava ao topo, pagava para aparecer. Ficar em sexto não era ganhar, mas alguém rolava a tela e podia escolher você mesmo assim.

Uma IA não ordena uma lista. Ela lê tudo o que encontra sobre a pergunta e sobre quem pergunta. Depois monta uma resposta com o que lhe dá mais confiança, com o que tem mais chance de estar certo. E hoje não há como pagar para entrar nessa recomendação.

Isso traz uma notícia incômoda para quem investiu num site bonito: estar em primeiro no Google não garante que você seja citado. As análises feitas sobre milhares de respostas chegam ao mesmo lugar: a grande maioria das páginas citadas pelos assistentes de chat não está entre os dez primeiros do Google. É outro jogo, com outras regras.

As três coisas que ela olha antes de citar você

Primeiro, o que os outros dizem de você. A maior parte do que uma IA lê sobre a sua agência não foi escrita por você. Ela prioriza avaliações, notas, matérias em que você apareceu, diretórios em que você está e sites que apontam para você. Seu site importa, mas ela olha depois. Primeiro procura quem valida você.

Segundo, que os dados batam. Se a sua agência aparece descrita do mesmo jeito no seu perfil do Google, no diretório da associação, numa matéria do setor e em cinquenta avaliações de passageiros, para a IA isso é uma confirmação forte. Se você aparece com dados diferentes em cada lugar, ou só no seu próprio site, não há nada para confirmar. E ela pula você.

Terceiro, ser específico. É a parte de que eu mais gosto, porque abre o jogo. Quase ninguém pergunta para uma IA "qual agência você recomenda" e para por aí. A pessoa pergunta com contexto: com quem viaja, de onde sai, quando e o que a preocupa. A IA procura alguém descrito para essa pessoa. Uma agência pequena bem posicionada no seu nicho ganha de uma grande que diz que faz de tudo. Com o Google, isso era muito mais difícil.

Com o Google, bastava ser encontrado. Com a IA, você precisa ser alguém que dá para citar.

Onde cada uma busca

Nem todas as IAs leem no mesmo lugar, e isso muda onde vale a pena você estar. Isto é o que se sabe hoje sobre as mais usadas:

Onde cada assistente de IA busca informação quando pedem uma recomendação
AssistenteOnde buscaO que cuidar primeiro
Gemini e as respostas com IA do GoogleA busca do Google e os dados do Google MapsSeu Perfil da Empresa no Google e as avaliações
ChatGPTUma mistura: índice próprio, Google, Bing e sites de avaliação como o TripadvisorDados iguais em todo lugar e avaliações em mais de um site
CopilotA busca do BingSeu perfil no Bing Places
ClaudeA busca do BraveOutros sites com link para o seu

Com base no que as plataformas publicam e no que aparece nas respostas, em setembro de 2026. Muda com frequência: use como mapa, não como regra fixa.

Sem data de verificação

A conclusão prática não é escolher uma. É que não existe uma porta só. Por isso o segundo fator pesa tanto. Se seus dados são os mesmos no Google, no Bing, no seu site e nos diretórios, todas chegam à mesma conclusão.

Quais fontes pesam mais

O perfil do Google e as avaliações. É a base de tudo, em especial para o Gemini e as respostas com IA do Google, que se apoiam direto nos dados do Maps. E como nem todas buscam no Google, vale repetir o mesmo no Bing Places. Quase nenhuma agência tem. Leva meia hora e coloca você na busca que o Copilot usa.

O que os outros dizem de você. É o que menos se aproveita. Imprensa do setor, o diretório da Abav ou da associação do seu estado, listas de operadoras, entrevistas e cases publicados por fornecedores. Uma matéria num veículo sério do setor soma bem mais do que parece.

Seu site. Precisa existir e precisa poder ser lido. Na maioria das agências que conhecemos, a oferta vive no Instagram e em nenhum outro lugar. O Instagram hoje aparece melhor nas buscas, mas não é o que um modelo prefere ler. Sem pelo menos uma página pública com a sua oferta por escrito, para a IA você quase não existe.

Para isso criamos o Trama Link, uma página pública e grátis com seu catálogo, preços e validades. Ela já sai preparada para ser lida pelo Google e pelas IAs. É uma forma de resolver, e um site próprio bem feito também serve. O que não serve é não ter nenhum.

Suas redes, de forma indireta. Uma IA não assiste aos seus reels nem olha suas fotos: analisar cada um sairia caríssimo. Ela lê a bio, as legendas e o texto das publicações. Pense assim: a imagem é para o humano, o texto é para a IA. Se a sua bio diz "agência de viagens" e mais nada, você não está dizendo nada para ela.

Fácil de ler, fácil de confirmar

Se eu tivesse que resumir tudo numa linha: sua agência precisa ser fácil de ler para uma IA e fácil de confirmar como confiável.

Fácil de ler é tirar a sua oferta dos formatos que só servem para olhar. Uma página por produto ou por destino, com texto de verdade: o que inclui, o que não inclui, a partir de quanto sai e até quando vale esse preço. Ajuda escrever do jeito que você responde a um passageiro, não como um folheto. Os modelos preferem encontrar a resposta já redigida.

Fácil de confirmar é seus dados não se contradizerem. Mesmo nome, mesmo endereço, mesmo telefone e mesmos links no Google, no Bing, no seu site, na associação e em cada diretório. É meio burocrático, mas importa. Quando os dados não batem, a IA perde a confiança e vai com a agência cujos dados batem.

Depois há três alavancas que valem o esforço.

Avaliações com texto. Cinco estrelas sem comentário não dizem nada, porque a IA lê o conteúdo. "Excelente atendimento" também não. "Montaram nossa lua de mel na Grécia e resolveram uma mudança de voo enquanto estávamos lá" posiciona você para uma consulta concreta. Peça pelo WhatsApp ao passageiro que voltou feliz, com uma pergunta que o convide a contar algo e o link direto. Algo assim:

"Oi, Sofia! Como foi a Grécia? Se você tiver dois minutinhos, ajuda muito a gente se você contar numa avaliação qual viagem vocês fizeram e o que mais te ajudou da nossa parte. Segue o link direto: [link do seu perfil]"

Um nicho próprio. O mais segmentado possível. A agência de esqui, a de grupos para Bariloche, a que faz viagens de formatura em Curitiba. Ser a agência de alguma coisa. As IAs recomendam para perguntas específicas e não têm onde encaixar quem publica de tudo.

Aparições fora do seu site. Imprensa, associações, parcerias, cases com fornecedores. É desconfortável, porque é preciso sair pedindo ou pagar. Mas é justamente o que mais faz diferença.

SEO e GEO: o que muda e o que não muda

O trabalho de aparecer nas respostas das IAs passou a ser chamado de GEO, sigla em inglês para otimização para motores generativos. É o primo do SEO de sempre, e vale ter clara a diferença antes de contratar alguém.

SEO e GEO, lado a lado
O que mudaSEO (o Google de sempre)GEO (as respostas de IA)
O que você ganhaUma posição numa lista de dez resultadosUma menção entre dois ou três nomes
Onde se trabalhaPrincipalmente dentro do seu sitePrincipalmente fora do seu site
O que pesa maisEstrutura do site, velocidade e links que apontam para vocêO que os outros dizem, dados que batem e especificidade
O que se medePosição e cliques, bastante estáveisMenções, que mudam de uma pergunta para outra
Dá para pagarSim, com anúncios separados do resultado orgânicoA recomendação não: os anúncios vão à parte

Sem data de verificação

A armadilha está na medição. No GEO, a mesma pergunta feita duas vezes no mesmo dia pode dar duas respostas diferentes. Por isso, se alguém oferece "colocar você em primeiro no ChatGPT", está vendendo fumaça. Depende de contexto demais.

E o GEO não substitui o SEO. Um soma ao outro. Um site que não está bem indexado não pode ser citado por ninguém, então a base técnica continua a mesma. O que muda é que já não basta ser encontrado. Agora precisam poder citar você.

Esbarrei nisso testando o Claude: sem pelo menos um site externo com link para o seu como referência, ele simplesmente não leva você em conta. Não é uma regra escrita em lugar nenhum, é o que vi nos testes. Mas vai na mesma direção de tudo o que veio antes. Dados concretos, fontes externas, texto que dá para citar e avaliações, em vez de só páginas bonitas.

O plano de 90 dias

Vou passar com datas, porque senão fica só na intenção.

Plano de 90 dias para as IAs recomendarem sua agência

  1. 1

    Semana 1: descubra onde você está

    Abra o ChatGPT, o Gemini e o Claude e faça dez perguntas que um cliente seu faria, com a sua cidade e o seu produto, sem citar a sua agência. Anote quais agências aparecem e quais não. Essa é a sua linha de base. Depois pergunte direto pela sua agência e veja o que dizem de você e de onde tiram isso.

  2. 2

    Semanas 1 e 2: arrume seus perfis

    Complete 100% do seu Perfil da Empresa no Google: categoria certa, horários, fotos, serviços e seu número do Cadastur. Depois crie o perfil no Bing Places, aquele que ninguém faz. Use exatamente o mesmo nome, endereço, telefone e site nos dois e no seu próprio site.

  3. 3

    Semanas 2 a 4: transforme seus produtos em páginas

    Escolha os seis produtos que você mais vende e monte uma página para cada um, com preço, validade e todo o detalhe possível: o que inclui, o que não inclui e para quem é. Preço e validade são o que permite a uma IA recomendar você no momento certo.

  4. 4

    Meses 1 e 2: some 20 avaliações com texto

    Uma por dia útil durante um mês. Peça pelo WhatsApp a passageiros que já viajaram, com uma pergunta que os faça contar algo concreto e o link direto. Responda todas com texto, inclusive as ruins, se chegarem.

  5. 5

    Meses 2 e 3: consiga três aparições fora

    Uma matéria ou entrevista num veículo do setor. Seu perfil no diretório da sua associação, com link para o seu site (peça que coloquem). E um case ou uma menção com uma operadora ou um fornecedor com quem você trabalha. Três, no mínimo.

  6. 6

    Dia 90: meça de novo

    Repita as mesmas dez perguntas da primeira semana nos mesmos assistentes e compare. Não espere aparecer em todas. Busque aparecer em mais do que no começo, e principalmente nas perguntas do seu nicho.

Quanto custa não aparecer

Esse custo não aparece em nenhum relatório. Sua planilha, seu CRM ou seu WhatsApp registram as consultas que chegaram e as que se perderam. A que a IA mandou para outra agência nunca existiu para você. Você não a perdeu na venda: perdeu antes de ela começar.

E é uma das consultas mais valiosas que existem. Chega com destino, datas e grupo já pensados, e com uma recomendação por cima. Do outro lado está alguém que já decidiu viajar e só precisava saber de quem comprar.

Além disso, é um efeito que se acumula. A agência que aparece recebe a consulta, vende, ganha a avaliação e soma mais uma menção. Na próxima vez, a IA tem ainda mais motivos para citá-la. Quanto mais tarde você começa, maior a distância para tirar.

Perguntas que sempre nos fazem

Posso pagar para o ChatGPT recomendar minha agência?

A recomendação em si, não. Em setembro de 2026, o ChatGPT mostra anúncios só para usuários dos planos gratuitos e em alguns países, entre eles o Brasil e o México, e eles ficam separados da resposta. Ser citado se conquista com o que os outros dizem de você, com dados que batem e com especificidade.

O que é o llms.txt e eu preciso dele?

É um arquivo que se sobe no site com um resumo organizado do conteúdo, pensado para ser lido pelas IAs. É o primo do robots.txt. Leva dez minutos e não faz mal, mas o Google já disse que não precisa dele para as respostas com IA. Não é aí que está a diferença: o que faz diferença acontece fora do seu site.

Quanto tempo leva para notar?

Os perfis e as páginas de produto se resolvem em semanas. As avaliações e as menções externas demoram mais, porque dependem de outras pessoas. Por isso o plano é de 90 dias e termina medindo de novo.

Como sei se uma IA está me recomendando?

Perguntando como um cliente faria, sem citar a sua agência, em vários assistentes e mais de uma vez. As respostas mudam, então não fique com um teste só. Anote o que aparece e repita todo mês.

Hoje à noite, quando fechar, abra o ChatGPT e pergunte o que o seu melhor cliente perguntaria. Com a sua cidade, o seu produto e a época do ano.

Se a sua agência aparece, você já sabe o que cuidar. Se não aparece, já tem a primeira tarefa da semana.

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