Há um ano, a pergunta em qualquer reunião de turismo era se a inteligência artificial servia para uma agência de viagens. Agora não mais. A esta altura quase todas testaram alguma coisa, e a pergunta mudou: por que para algumas funcionou e para outras sobrou mais uma aba aberta no navegador.
A diferença quase nunca está na ferramenta. Está em que parte do trabalho ela é usada. Existem três lugares diferentes em que a IA entra em uma agência, e convém percorrê-los em ordem, porque cada um paga uma coisa distinta: o primeiro devolve horas, o segundo devolve consultas, e o terceiro devolve vendas.
Primeira onda: a IA que devolve horas de escritório
Já está acontecendo em todas as agências, quase sempre sem plano e às vezes escondido: alguém abre o ChatGPT em outra aba e resolve alguma coisa. Está certo, funciona, e convém fazer isso a sério em vez de por conta própria. Estas são as tarefas em que rende de verdade:
- Escrever os textos que hoje você escreve à mão. A descrição de um pacote, o post do Instagram, o texto de um anúncio. É o primeiro uso de todos e o que se nota mais rápido.
- Montar o roteiro dia a dia. Você passa os serviços (voos, hotéis, traslados, passeios) e ela escreve a versão organizada que o passageiro quer ler. O conteúdo continua sendo seu.
- As peças da semana. Três variantes de um flyer em vez de uma, nos tamanhos que você usa: feed, story e a imagem que manda pelo WhatsApp.
- Traduzir sem ficar estranho. O mesmo pacote para um passageiro argentino, ou o material de um operador que chega em inglês.
Duas regras que valem para tudo isso
Nunca peça a ela os dados que você já tem. Preço, disponibilidade, condições, roteiro real: isso você dá. Se perguntar, ela inventa, e inventa com uma prosa convincente. A IA redige, não orça.
O prompt que funcionou é um ativo: guarde. A diferença entre uma agência que diz que usa ChatGPT e uma que tira proveito é que a segunda tem seis instruções salvas que funcionam, com o tom da casa dentro, e as reutiliza toda semana em vez de escrever do zero cada vez.
Isso devolve horas de verdade e vale começar esta semana. O que não faz é tocar no lugar onde as vendas se perdem, e por isso não basta.
Segunda onda: a IA que atende quando você não pode
O problema de uma agência quase nunca é a redação. É que a consulta das 23h40 de uma terça espera até de manhã, e de manhã a pessoa já pediu orçamento em outro lugar. Uma IA que faz as três perguntas que faltam às 23h41 não está substituindo ninguém: está cobrindo o turno que ninguém consegue cobrir.
Aqui a diferença de qualidade é grande e convém saber o que exigir. Uma IA que atende tem que fazer três coisas que um menu de opções não faz: entender o que a pessoa escreveu mesmo que não esteja em nenhum roteiro, saber o que a agência vende de verdade, e ter escrito quando ela para de atender e passa a conversa para um vendedor.
E há uma decisão de arquitetura que convém tomar cedo: o agente atende em um número da agência dedicado a isso, não no telefone de um vendedor. É o que depois permite medir, segmentar e passar adiante sem escrever por cima de ninguém.
Terceira onda: a IA como mais um da equipe
É a que não se vê e a que mais muda o resultado, porque ataca o trecho em que as vendas caem de verdade: o que vai da consulta até o orçamento. A que escreve a ficha do cliente enquanto o vendedor conversa, a que monta a lista de retomada da segunda-feira, a que avisa que um sinal vence na sexta, a que não deixa uma consulta ficar sem dono.
A forma que acabou fazendo sentido para nós é deixar de pensar a IA como uma coisa só que atende o WhatsApp, e pensá-la como um assistente por função, cada um com acesso ao que aquela função precisa:
- Para o vendedor. A quem ele pergunta pelo telefone o que foi conversado com a Laura duas semanas atrás, pede o rascunho da retomada e deixa agendado o lembrete do sinal. Sem abrir uma tela.
- Para quem cuida do catálogo. Carregar produtos, manter as tarifas em dia e responder o que existe montado para uma data e um orçamento.
- Para quem olha a caixa de entrada. Quais conversas ficaram sem resposta, quais estão quentes, qual esfriou sem ninguém perceber.
- Para quem distribui o trabalho. Quem tem o quê, como está a carga de cada vendedor, para quem convém encaminhar o próximo lead.
- Para a direção. O que aconteceu esta semana contra a anterior, sem abrir uma planilha nem pedir o número para ninguém.
É a mesma tecnologia da segunda onda, apontada para dentro. E é a que fica pior em uma demo, porque não tem uma tela bonita para mostrar: tem um vendedor perguntando algo ao telefone e recebendo a resposta em dez segundos.
Como é uma operação em que isso já funciona
Três números em vez de adjetivos. São medianas medidas nas conversas de uma dezena de agências de viagens em um dia normal de trabalho:
- Cinco mensagens da agência, de ponta a ponta. Essa é a mediana de uma consulta que termina qualificada. Cinco mensagens bem colocadas, não um papo de quarenta.
- Com duas dessas cinco já dá para saber se a consulta é real. O trecho inicial, o de descobrir o que a pessoa procura e se está falando sério, é curto e é o mais mecânico de todos. Por isso é o primeiro que convém delegar.
- Uma consulta que ninguém tocou em quatro horas já está em risco. É o prazo com que avisamos por padrão, e ainda é generoso: o trecho entre alguém perguntar e alguém responder é onde mais se perde.
Se você quer o detalhe operacional de tudo isso, está em três artigos à parte: como organizar a venda pelo WhatsApp, que mensagens são mandadas e quais precisam de aprovação da Meta e quanto custa tudo isso.
Isso não é uma coisa do turismo
Vale levantar a cabeça um segundo, porque o padrão não é nosso. Ele se repete em qualquer ofício em que o gargalo é a mesma pessoa: alguém com critério, com anos de estrada, que além disso precisa dar conta de um monte de trabalho repetitivo antes de poder usar esse critério.
No direito está acontecendo exatamente a mesma coisa. O Laurel, da LexGate, é uma plataforma de IA para advogados argentinos: busca jurisprudência e códigos com fontes verificáveis, resume processos longos e monta o primeiro rascunho de uma peça. O lema dele é "Mais inteligência artificial. Mais advogado do que nunca", que é a nossa própria tese trocando uma palavra, e não achamos que seja coincidência.
Nos dois casos a IA não encosta na decisão que define o ofício. Não escolhe qual hotel serve para uma família que viaja com uma criança de dois anos, nem qual estratégia um caso deve seguir. Ela come a parte de que nenhum profissional sente falta: buscar, organizar, resumir, redigir o primeiro rascunho, não perder o fio de vinte assuntos abertos ao mesmo tempo. E nos dois, o que ela devolve é tempo para a parte que o cliente realmente paga.
Quando o mesmo movimento aparece em dois ofícios que não se parecem em nada, deixa de ser moda de um setor e começa a parecer como se vai trabalhar.
Os quatro erros que levam a concluir que não serve
- Comprar uma árvore de opções e chamar de IA. O "digite 1 para pacotes, 2 para voos" não entende nada: se a pessoa escreve algo que não está no menu, trava. E o passageiro percebe na primeira mensagem, que é exatamente o pior momento. É uma das cinco mentiras que contam sobre IA no turismo, e a mais cara.
- Colocá-la para atender sem dizer o que a agência vende. Sem catálogo carregado, sem tarifas e sem as regras da casa, qualquer modelo responde genérico ou inventa. O trabalho chato de carregar o que você vende é o que define se a IA soa como a sua agência ou como um folheto.
- Não definir quando ela para de atender. Uma IA sem critério de passagem ou passa tudo ou não passa nada, e as duas coisas são caras. Convém escrever como um mínimo de dados: o nosso padrão para uma agência de viagens é que tenha nome, destino e datas antes de passar a conversa para uma pessoa. Cada agência sobe ou desce isso, mas precisa existir.
- Não medir nada antes de começar. Se você não sabe quantas consultas entravam por mês nem quanto demorava para responder, em noventa dias não vai conseguir dizer se serviu, e a discussão vai se resolver por impressão. Dois números anotados em um papel antes de começar valem mais do que um painel depois.
A parte que não se automatiza
O passageiro que liga porque o voo foi cancelado com a família já no aeroporto não quer falar com um sistema. O casal que está gastando a economia de dois anos em uma viagem também não. Essa conversa é o trabalho, e é a razão pela qual uma agência existe tendo o mundo inteiro a um clique.
Escrevemos sobre isso à parte: a IA não substitui o agente de viagens, ela devolve a parte humana. As três ondas vão nesse sentido: a primeira tira o trabalho de escritório, a segunda tira o plantão da noite, e a terceira tira a contabilidade mental de vinte clientes abertos. O que sobra é a conversa, que é a única coisa que mais ninguém pode ter com aquele passageiro.
Como incorporar inteligência artificial em uma agência de viagens
- 1
Escolha uma única tarefa de escritório, a que mais te entedia
Redigir roteiros, escrever as descrições dos pacotes ou montar as peças da semana. Só uma, a que você faz toda semana e que consome mais tempo do que vale.
- 2
Dê os seus dados, não peça os dela
Passe os serviços reais, os seus textos, as condições que você já tem escritas. Preço e disponibilidade nunca se perguntam: se dão. Um modelo a quem falta um dado completa assim mesmo, e soa bem.
- 3
Guarde o prompt que funcionou
Quando uma instrução devolver algo utilizável, guarde com o tom da casa dentro e reutilize. Seis prompts salvos rendem mais do que qualquer assinatura cara.
- 4
Só então olhe para o canal
Com as horas de escritório já recuperadas, a pergunta seguinte é o que acontece com a consulta que entra às onze da noite ou no domingo. Esse é o salto de economizar tempo para não perder vendas.
- 5
Escreva o mínimo de dados para passar a conversa a uma pessoa
O que precisa estar reunido antes de um vendedor entrar na conversa. Nome, destino e datas é um ponto de partida razoável. O importante é que exista, que esteja escrito e que seja o mesmo para a equipe inteira.
- 6
Compare dois números aos trinta dias
Quanto tempo você leva para dar a primeira resposta útil e quantas consultas chegam a ter os dados mínimos para orçar. Anote antes de começar. Se aos trinta dias nenhum se moveu, o problema estava em outro lugar e convém saber rápido.
O que dá para pedir hoje a uma IA na minha agência de viagens?
Sem conectar nada e desde o primeiro dia: escrever a descrição de um pacote ou o post da semana, montar o roteiro dia a dia a partir dos serviços que você já vendeu, gerar variantes de um flyer para feed, story e WhatsApp, e traduzir material que chega em outro idioma. O que nunca se pede são preços, disponibilidade ou condições: isso você dá.
A inteligência artificial serve para uma agência de viagens pequena?
Serve, e às vezes mais do que em uma grande. A primeira onda não depende do tamanho: a tabela de tarifas e os roteiros pesam igual em uma agência de duas pessoas. E na segunda, uma agência pequena é justamente a que não tem ninguém de plantão às onze da noite, que é onde as consultas se perdem.
A IA vai falar com os meus clientes sem que eu veja nada?
Não, e convém entender como isso se organiza antes de contratar. O agente atende em um número da agência dedicado a isso, não no telefone de um vendedor, e tudo o que ele diz fica registrado na conversa que a equipe vê. O que define até onde ele vai não é um botão de emergência: é um critério escrito de passagem, ou seja, quais dados precisam estar reunidos antes de a conversa ir para uma pessoa. Cumprido isso, segue o vendedor.
Ela substitui os vendedores?
Não, e quem promete isso nunca vendeu uma viagem. A decisão que define o ofício, o que serve para esta família com este orçamento nestas datas, não é tomada por um modelo. O que se automatiza é o antes e o ao lado: o trabalho de escritório, as perguntas que faltam, a ficha, a retomada, o lembrete que ninguém mandou.
Em quanto tempo se vê um resultado?
A primeira onda aparece na mesma semana, porque é tempo que você deixa de perder em tarefas de escritório. A segunda aparece no tempo até a primeira resposta útil e em quantas consultas chegam aos dados mínimos para orçar, e isso se mede aos trinta dias. A terceira é a mais lenta de ver e a que mais muda o resultado.
Isso acontece só no turismo?
Não. O mesmo movimento aparece em qualquer profissão em que alguém com critério perde metade do dia com trabalho repetitivo. No direito, por exemplo, há plataformas como o Laurel, da LexGate, que busca jurisprudência com fontes verificáveis e monta rascunhos de peças para advogados argentinos, com a mesma ideia de fundo: a IA faz o trabalho prévio, a decisão continua sendo do profissional.
O que eu preciso ter antes de começar?
Para a primeira onda, nada: uma conta e uma tarefa escolhida. Para a segunda e a terceira, três coisas, e nenhuma é tecnológica: o que você vende carregado em algum lugar, um critério escrito de quando a conversa passa para uma pessoa, e dois números do mês anterior para poder comparar.

Yaco Peralta
Co-founder & CEO, trama.
Construyendo trama. para que las agencias de viajes vuelvan a tener foco en la asesoría humana.
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